ESG: Fazer o bem é bom para os Investimentos

Investimentos que levam em conta critérios de sustentabilidade ou ESG têm se alastrado pelo mercado financeiro
19/02/2021 - Real Invest
Real Invest

Investimentos que levam em conta critérios de sustentabilidade ou ESGEnvironmental, Social and Governance (em português, Ambiental, Social e de Governança) têm se alastrado pelo mercado financeiro.


Embora ainda em uma fase inicial no Brasil, com algumas iniciativas significantes no país, no exterior essas são características exigidas e muitas vezes consideradas fundamentais pelo investidor estrangeiro.


ESG e como ele afeta as empresas


O investimento ESG é um campo bastante amplo com muitas abordagens diferentes de investimento cada uma focando em vários objetivos.


De forma geral, podemos dividir o investimento ESG em três áreas principais cada qual com seu objetivo.


·         Primeira: integração financeira do ESG no portfólio. Nesta área, o objetivo principal é melhorar as características de risco-retorno de uma dada carteira de ativos através do componente ESG.

·         Segunda: investimento baseado em valores, no qual o investidor busca alinhar seu portfólio com suas regras pessoais e crenças.

·         Terceira: investimento de impacto, no qual investidores desejam usar seu capital para desencadear mudanças de cunho social ou ambiental como, por exemplo, para acelerar a descarbonização da economia.



Após essa breve introdução e considerando a extensão do assunto, vamos focar neste artigo no primeiro objetivo ou área de interesse que é o ESG como forma de atingir os objetivos financeiros na gestão de portfólio.


Para termos uma noção da importância do ESG no mundo, é importante ressaltar que um em cada quatro dólares sob gestão profissional nos Estados Unidos e um em cada dois dólares sob gestão profissional na Europa estão atrelados a exigências ESG quanto aos ativos investidos.


Essa popularidade toda fomentou diversos estudos sobre a correlação ESG x performance financeira dos investimentos.


Vamos dar uma olhada mais de perto em um desses estudos: “Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance”, publicado na edição de julho de 2019 do The Journal of Portfolio Management.


A originalidade e o destaque desse estudo ficam por conta de uma abordagem diferente: em vez de simplesmente buscar pela correlação entre características ESG e performance histórica, esse estudo visa desenvolver o entendimento de como as características ESG afetam o valuation e o perfil de riscos das corporações e verificar como se dá essa transmissão de valor nas empresas.


O estudo


A sistemática do estudo é desenvolvida primeiramente identificando os três canais pelos quais as práticas ESG impactam o valor de mercado de uma empresa.


Os canais são então validados utilizando as notas ESG atribuídas pelo Morgan Stanley Capital International (MSCI) para as mais de 1600 ações componentes do MSCI World Index, fornecendo uma base estatística de empresas suficientemente diversificada por indústria.


O primeiro canal de transmissão de valor do ESG é pelo fluxo de caixa e o seu racional econômico é o seguinte:


1)      Empresas com forte perfil ESG são mais competitivas que seus pares, seja por uso mais eficiente de recursos, melhor desenvolvimento do capital humano ou melhor gestão de inovação. Adicionalmente empresas com notas altas em ESG são, geralmente, melhores no desenvolvimento de planos de negócios de longo prazo e planos de incentivo para os altos executivos;

2)      Empresas com notas ESG altas utilizam sua vantagem competitiva para gerar retornos anormalmente altos, o que em última instância leva a lucratividade maior;

3)      Lucratividade maior resulta em dividendos maiores.


O segundo canal de transmissão se refere a quão bem gerido é o negócio e os riscos operacionais das empresas com maiores notas ESG. Segue o racional:


1)      Empresas com sólidas práticas ESG tipicamente têm controle de riscos e padrões de compliance acima da média por toda a companhia e no gerenciamento de fornecedores;

2)      Por conta disso, estas empresas sofrem menos frequentemente de incidentes como fraude, balanço maquiado, corrupção e litígios, os quais podem impactar o valor da companhia e, portanto, o preço de suas ações;

3)      Incidentes menos frequentes levam em última instância a menor downside ou risco de cauda (eventos de baixíssima probabilidade) para o preço das ações.


E por último, um forte perfil ESG gera valuations mais altos através do seguinte processo de transmissão:


1)      Empresas com uma cultura ESG vigorosa são menos vulneráveis a choques de mercado sistêmicos e, portanto, mostram apresentam baixo risco sistêmico. Por exemplo, companhias eficientes no uso de energia ou commodities são menos vulneráveis a mudanças no preço desses insumos em relação a seus pares menos eficientes e por isso o preço da ação tende a apresentar menos risco sistêmico com relação a esses fatores de risco;

2)      Risco sistêmico mais baixo se traduz em investidores exigindo menor retorno para financiar a empresa, que por sua vez se traduz em menor custo de capital para a companhia;

3)      Num modelo de valuation por fluxo de caixa descontado (FCD), uma empresa com menor custo de capital teria um valuation mais alto.


O estudo mostra para cada uma dessas formas de transmissão, que a quinta parte do índice MSCI World com as maiores notas ESG leva bastante vantagem sobre a quinta parte com as piores notas ESG (considerando empresas no mesmo ramo de atuação).



Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance (jpm.iprjournals.com)


Nota: Diferencial de performance acumulada da quinta parte superior versus a quinta parte inferior do ranking de momentum ESG.

O momentum ESG é definido como a mudança da nota ESG nos 12 meses anteriores sendo que companhias com upgrade de nota tendem ao Q5 (quinta parte superior) e aquelas com downgrade de nota tendem ao Q1 (quinta parte inferior) do ranking.


 

Conclusão


Ao explicar os canais de transmissão, o estudo mostrado no artigo nos fornece visão clara e intuitiva de como as características e práticas ESG afetam o valuation e o desempenho das empresas, tanto através de seu perfil de risco sistêmico (custos de capital mais baixos e valuations mais altos) bem como seu perfil de risco idiossincrático (lucratividade maior e menor exposição a riscos de cauda).


Podemos perceber que a transmissão de valor para a empresa a depender do quão forte é a cultura ESG ocorre de forma multidimensional e pode ser comprovada pela análise de dados das ações presentes no MSCI World Index e com o auxílio das notas ESG atribuídas pela equipe do MSCI através de metodologia própria de ranqueamento.



Texto por Bruno Rezende (Assessor Real Invest) 

Você pode gostar de